Wednesday, October 10, 2007

Cartas de Inês


Inês e Samuel encontravam-se mais uma vez separados por razões profissionais. Era nestes momentos que Inês se concentrava de forma exagerada no trabalho, para que a sua cabeça continuasse a funcionar normalmente e não se enrolasse nos seus próprios pensamentos.

Mas fazia-lhe bem ao mesmo tempo. Ganhava forças onde menos esperava e tornava-se mais forte. Samuel não lhe saía do pensamento. Por qualquer coisa que fizesse Inês pensava sempre no que ele diria ou acharia, ou mesmo as piadas que faria naquele momento. Conhecia-o bem e por isso conseguia, até certo ponto, prever o que seria daqueles momentos se Samuel ali estivesse.


Mas as noites continuavam a ser o maior tormento e, nessa altura, sentava-se e escrevia páginas sem fim. Páginas que nunca seriam lidas por ninguém, pois Inês guardava-as como se guardasse a sua própria vida.


"Cá estou eu de novo a escrever, sem saber muito bem o destino destas linhas! É para ti que escrevo, pois é para ti que os meus pensamentos estão virados! Tinha decidido escrever um bocadinho todos os dias que estivesses longe, mas... tudo não passou da vontade! Ao fim do dia estou tão cansada, que não tenho força para o fazer! Caio à cama e já não consigo abrir os olhos, senão no dia seguinte. Mas todos os dias penso em ti e no que andas a fazer.

Pois é! Por muito que tente ainda "andas às voltas" na minha cabeça! E sabes que quanto mais tento agarrar-me aos momentos maus para te esquecer de uma vez por todas, mais ficas gravado na minha cabeça! Parece que os maus momentos não são suficientes...

A cada momento que decido apagar-te de vez dentro de mim, há algo que faz com que voltes a entrar na minha vida! É o destino! Então, "alimento-me" desses pequenos momentos de alegria. Ganho vida e luz dentro de mim. Sinto-me irradiar energia! E tu sabes disso, não é?

Assim fica dificil! E tal como uma vez te disse, não sei o que fazer! Não sei se queres que continue por perto, que te deixe em paz, que nunca mais toque no assunto.

Lembras-te? Foste tu que me pediste para te "deixar voar"! E, nem imaginas o que custou mas assim o fiz. Mas tu voltas sempre a posar no meu "ninho"... nem que seja para dizer olá! Por isso, às vezes pergunto: O que queres que faça?

Uma vez pedi-te um sinal e, quando menos esperava uma reacção tua, deste-me de entre todos os sinais magnificos, apenas o melhor e o mais soberbo sinal que poderia ter recebido! No entanto, inconstante como és, alguns dias depois estavas a desprezar-me como a um cão vadio!

No entanto, vejo-te completamente agarrado a uma relação que anda aos solavancos e quando te vejo triste como nunca vi, revolto-me e quero gritar-te e dizer: Vamos embora daqui! Vamos deixar estes malucos para trás e esquecer tudo isto!

Chegaste a pedir uma solução para nós e eu queria dar-te essa solução! Sabes porque não falei? Porque tive medo da tua reacção... Porque pauto a minha vida com medo.

Só não percebo porque o destino está a ser tão cruel! Não percebo porque é que quem está a "mexer os cordelinhos" da nossa vida está a fazer isto. Só por gozo, só pode! Porque não consigo afastar-me de vez de ti ou afastar-te de mim, para poderes seguir o teu caminho de forma tranquila. Tens esse direito. Tens o direito de construir a tua vida, de teres ao teu lado alguém que te ame. E eu não te posso oferecer nada mais do que amor, carinho e amizade. Coisas simples, mas que aparentemente todos desprezam em função das imagem da nossa sociedade. A única coisa que te posso dizer é que estarão SEMPRE à tua disposição quando precisares de alguma delas.

(...)

Isto tudo para dizer, quanto ainda estúpida e teimosamente gosto de ti! Dá para imaginar?

E, no entanto, continua um monte de perguntas sem resposta a bailar na minha cabeça! Perguntas que fui fazendo ao longo deste tempo todo e, que ainda não tive hipótese de perguntar. Algumas por medo da resposta, outras por falta de oportunidade, outras mesmo porque eu mesmo dou, ou tento dar, as respostas.

É assim a minha vida, cheia de pontos de interrogação! Acho que vou escrevê-las e um dia quem sabes tu possas responder!


TENHO SAUDADES TUAS, tenho saudades das longas conversas que tínhamos sem olhar o tempo a passar! Tenho saudades de ti como o todo que estava habituada! Saudades da tua presença, da tua pessoa, do teu carinho e do teu ombro amigo! Claro, sem esquecer, saudades de todo o amor que me deste!
Com carinho da tua
Inês"


Mais uma vez as palavras de Inês foram lançadas ao ar, na esperança de que o vento as levasse para bem longe! Talvez assim, pudesse seguir o seu caminho...